terça-feira, 29 de novembro de 2016

A vida como ela é

Texto de reflexão sobre a grande tragédia ocorrida com o avião da delegação da Chapecoense e jornalistas no início desta manhã


Muito cedo para pensar, escrever e contar a história magnífica da equipe e da cidade de Chapecó. Principalmente da parte mais recente, onde o clube subiu divisão por divisão, degrau por degrau, até chegar no topo. A grande final de um torneio continental. Parecia sonho, mas era verdade. A Chapecoense estava classificada para disputar um título desta expressão.
Time que há três anos era desconhecido em território nacional. Com tímido investimento, distante dos principais polos de futebol no país e dos holofotes da mídia. Situação esta que melhorou consideravelmente nestes últimos anos.

Jogadores da Chapecoense alinhados para a partida contra o San Lorenzo

Tudo parecia um sonho, a classificação, as defesas heroicas de Danilo, o espaço conquistado na mídia, os estádios ferventes, mas da noite para o dia, infelizmente, virou pesadelo. Sem mais nem menos, acordamos com a notícia de que já não existia mais o que sonhar. 
Do paraíso ao inferno em uma noite. Era mais que uma cidade comovida com a classificação, como dito pelo próprio Clube, éramos 200 milhões torcendo pela Chape na final. Se ela viesse a acontecer.
Por enquanto, o que da pra absorver disso, é o quanto a vida é passageira e feita de momentos. Como quem está no mais baixo dos degraus, pode crescer e chegar ao topo. E quem está no ápice, no seu auge, na final do torneio continental... Pode cair, voltar ao chão, ao zero e talvez nunca mais levantar.


União e amizade eram virtudes carregadas por todo o time

Sejamos nós quem faremos nosso mundo girar e mudar de situação, de um patamar a outro. Mas sempre sejamos cientes de que tudo pode mudar, da água para o vinho, da noite para o dia e o jogo virar novamente. Cabe a cada um conseguir identificar e eliminar o que atrasa e focar para trabalhar no que avança.

"Mesmo com o tempo fechado, com os prédios na frente, o sol ainda vai estar lá. Mesmo com guerras, com perdas, então olhe pro topo, o bloco vai estar lá" - BK'

Futebol Estatística entra em luto de 7 dias em respeito ao ocorrido. Nossa solidariedade e condolências aos envolvidos. 

sábado, 26 de novembro de 2016

China, ex-volante campeão mundial pelo Grêmio, relembra os anos dourados e fala sobre o futuro

Hoje técnico da seleção sub-15 do tricolor gaúcho, China conta desde sua estréia no Grêmio, até os seus projetos atuais e planos futuros, ainda envolvendo o seu time do coração


Natural de Espumoso, RS, nascido em 13 de setembro de 1959, o Gaúcho com apelido oriental começou a dar seus primeiros passos e passes no futebol, no modesto 14 de Julho, em Passo Fundo. Henrique Valmir da Conceição, ou China, mesmo sem ter feito processo de categorias de base, ao realizar um teste, conseguiu ingressar nos juniores do clube. Após três meses de estadia tendo feito bom desempenho em torneio regional, foi contratado para o time principal. A partir daquele momento, pôde desenvolver-se melhor técnica e fisicamente. Chegou até a morar nos alojamentos do clube durante o período. Este que não durou muito, logo ele foi contratado pela Chapecoense e mudou-se para o estado de Santa Catarina. Lá, jogou parte de um campeonato brasileiro e logo foi transferido para o Grêmio, inicialmente em período de testes de três meses.

China conta sobre sua passagem pelo Grêmio, fim da carreira de jogador
e trabalhos como treinador - 




Além de sua passagem histórica pelo tricolor gaúcho, eternizando a camisa 5, ganhando títulos de todas escalas, do estadual ao mundial, China também teve larga experiência como treinador. Foram oito estados do Brasil em clubes de menor expressão, na maioria dos casos contratado em situações emergenciais e sem estrutura. Fora do nosso país, ele conseguiu ter mais sucesso. 


Chegou a treinar times na Arábia e Bahrein, onde subiu um time para a primeira divisão e salvou outro de ser rebaixado. Ainda como treinador na Arábia, conquistou um vice da Copa do Rei. Questionamos a ele sobre essas experiências vividas nestes países.

"No Bahrein é mais tranquilo, na Arábia é uma prisão, tu não tem liberdade pra nada, nem pra rezar. Mas tem que ver que quando tu chega lá, eles já te dão todas as regras pra assinar, aceita quem quer." - China

Em relação ao processo de passagem de filosofia tática e técnica, com as dificuldades da cultura e da língua, China afirma que ele primeiramente não passou por problemas com tradutores, pois conhecia o seu e já eram amigos, assim havia confiança na palavra passada de um para outro. Porém relata que em outros casos não foi bem assim.

"Esse meu funcionou, pois era muito meu amigo, era um cara muito bom, gostava de mim, era gremista, morou aqui no Sul também. Mas já com outros eu sabia que falava uma coisa e eles diziam outra aos jogadores. Não cheguei a aprender árabe pois não quis, mas me comunicava também em inglês." - China

Questionado referente ao nível técnico de competição, afirmou que no Bahrein ainda é baixo, pois muitos jogadores trabalham em outras profissões, não tendo exclusividade ao futebol. Já na Arábia, pelo contrário, o nível é alto pois o mercado é inflado, altíssimos salários e jogadores que de acordo com China, não gostam de treinar.

"Lá eles são enjoados, é complicado, ganham bem. Vai falar com eles, tudo cheio do dinheiro, e eu mandando correr, pular, suar. Mas é assim, já quando tu chega eles avisam, "Aqui tem que mandar, tem que gritar, tem que ser duro.", aí é comigo mesmo" - China


China em frente ao setor administrativo do CT Cristal. (Foto:Renato Kubaszeski)
         


Ainda referente a sua passagem pelo mercado oriental, China relata também um grave problema já muito antigo no futebol. O empresariado interferindo no futebol dos clubes. Existem diversos casos de convocações questionáveis, titularidades precoces, ausências inexplicadas, etc. Tentaram fazer o mesmo com o camisa 5 gremista, mas com ele não foi possível. 

"Em quase todos os contratos que me ofereceram por lá, queriam que eu falasse de futebol já antes, dissesse quem vai jogar, como vou montar e escolher. E isso eu não aceitava, tudo menos isso. Porque aí tu escolhe um jogador X pra jogar na posição, avisa a diretoria e amanhã esse mesmo jogador tem uma "dor de barriga","morte da tia" ou alguma "indisposição muscular" para que o jogador Y entre no lugar dele, com o dedo do empresário." - China

Abordamos também a ocorrência desse tipo de caso no Brasil e ainda de acordo com o craque gremista, em nosso país isso até pode ocorrer, como o caso de Gefferson, lateral-esquerdo colorado na seleção, mas em menor escala, em virtude dos clubes ainda priorizarem muito o resultado, pautado no interesse de sua torcida, diferente de alguns casos em países do oriente, onde o principal interesse do clube é o comercial.

Presente e Futuro


Hoje, China trabalha no CT Cristal, ali em frente ao Barra Shopping - POA, diretamente com o sub-15 do Grêmio, a seleção dos melhores jogadores nascidos entre 2001 e 2002. Sobre o trabalho atual, afirma que gosta de onde está por ser um ambiente educativo e estar diretamente ligado a formação dos garotos.



Vestiários CT Cristal (FOTO:Osmar Martins)
Referente ao futuro, se diz satisfeito em ser funcionário do Grêmio e a ele estar a disposição. Relata também sua vontade de estar mais próximo do profissional. Questionado o motivo disso não estar acontecendo hoje, China não sabe dizer ao certo, acredita que sejam motivações do clube, pois ele se sente preparado para maiores desafios. Com todos os anos e situações agregando experiência, o professor afirma que teria know-how para agregar diretamente o trabalho que hoje existe no elenco de ponta da equipe gremista. 

"Tem muita coisa lá que não poderia acontecer para uma equipe do tamanho do Grêmio. Com certeza teria coisas pra mudar. Acho que tinham que criar uma coisa que já tínhamos há muito tempo, o Departamento de Fundamento para funcionários, tem muitos lá que não fazem tudo que podia fazer. Eu sei das minhas capacidades, meus conhecimentos, só que o problema é que muita coisa se perde no hiato daqui para lá (profissional), também pela realidade vivida pelos garotos fora daqui." - China

O ídolo gremista também discorda de certos pontos no futebol jogado atualmente pelo Grêmio, principalmente no que foi criado por Roger Machado, dizendo ser um futebol mais "carioca ou paulista", porém é esperançoso com o trabalho de Renato Portaluppi e Valdir Espinosa. Acreditando que com uma equipe mais vertical e com tudo conspirando a favor, esse ano o título finalmente venha.


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