Além de sua passagem histórica pelo tricolor gaúcho, eternizando a camisa 5, ganhando títulos de todas escalas, do estadual ao mundial, China também teve larga experiência como treinador. Foram oito estados do Brasil em clubes de menor expressão, na maioria dos casos contratado em situações emergenciais e sem estrutura. Fora do nosso país, ele conseguiu ter mais sucesso.
Chegou a treinar times na Arábia e Bahrein, onde subiu um time para a primeira divisão e salvou outro de ser rebaixado. Ainda como treinador na Arábia, conquistou um vice da Copa do Rei. Questionamos a ele sobre essas experiências vividas nestes países.
"No Bahrein é mais tranquilo, na Arábia é uma prisão, tu não tem liberdade pra nada, nem pra rezar. Mas tem que ver que quando tu chega lá, eles já te dão todas as regras pra assinar, aceita quem quer." - China
Em relação ao processo de passagem de filosofia tática e técnica, com as dificuldades da cultura e da língua, China afirma que ele primeiramente não passou por problemas com tradutores, pois conhecia o seu e já eram amigos, assim havia confiança na palavra passada de um para outro. Porém relata que em outros casos não foi bem assim.
"Esse meu funcionou, pois era muito meu amigo, era um cara muito bom, gostava de mim, era gremista, morou aqui no Sul também. Mas já com outros eu sabia que falava uma coisa e eles diziam outra aos jogadores. Não cheguei a aprender árabe pois não quis, mas me comunicava também em inglês." - China
Questionado referente ao nível técnico de competição, afirmou que no Bahrein ainda é baixo, pois muitos jogadores trabalham em outras profissões, não tendo exclusividade ao futebol. Já na Arábia, pelo contrário, o nível é alto pois o mercado é inflado, altíssimos salários e jogadores que de acordo com China, não gostam de treinar.
"Lá eles são enjoados, é complicado, ganham bem. Vai falar com eles, tudo cheio do dinheiro, e eu mandando correr, pular, suar. Mas é assim, já quando tu chega eles avisam, "Aqui tem que mandar, tem que gritar, tem que ser duro.", aí é comigo mesmo" - China
 |
| China em frente ao setor administrativo do CT Cristal. (Foto:Renato Kubaszeski) |
Ainda referente a sua passagem pelo mercado oriental, China relata também um grave problema já muito antigo no futebol. O empresariado interferindo no futebol dos clubes. Existem diversos casos de convocações questionáveis, titularidades precoces, ausências inexplicadas, etc. Tentaram fazer o mesmo com o camisa 5 gremista, mas com ele não foi possível.
"Em quase todos os contratos que me ofereceram por lá, queriam que eu falasse de futebol já antes, dissesse quem vai jogar, como vou montar e escolher. E isso eu não aceitava, tudo menos isso. Porque aí tu escolhe um jogador X pra jogar na posição, avisa a diretoria e amanhã esse mesmo jogador tem uma "dor de barriga","morte da tia" ou alguma "indisposição muscular" para que o jogador Y entre no lugar dele, com o dedo do empresário." - China
Abordamos também a ocorrência desse tipo de caso no Brasil e ainda de acordo com o craque gremista, em nosso país isso até pode ocorrer, como o caso de Gefferson, lateral-esquerdo colorado na seleção, mas em menor escala, em virtude dos clubes ainda priorizarem muito o resultado, pautado no interesse de sua torcida, diferente de alguns casos em países do oriente, onde o principal interesse do clube é o comercial.
Presente e Futuro
Hoje, China trabalha no CT Cristal, ali em frente ao Barra Shopping - POA, diretamente com o sub-15 do Grêmio, a seleção dos melhores jogadores nascidos entre 2001 e 2002. Sobre o trabalho atual, afirma que gosta de onde está por ser um ambiente educativo e estar diretamente ligado a formação dos garotos.
 |
| Vestiários CT Cristal (FOTO:Osmar Martins) |
Referente ao futuro, se diz satisfeito em ser funcionário do Grêmio e a ele estar a disposição. Relata também sua vontade de estar mais próximo do profissional. Questionado o motivo disso não estar acontecendo hoje, China não sabe dizer ao certo, acredita que sejam motivações do clube, pois ele se sente preparado para maiores desafios. Com todos os anos e situações agregando experiência, o professor afirma que teria know-how para agregar diretamente o trabalho que hoje existe no elenco de ponta da equipe gremista.
"Tem muita coisa lá que não poderia acontecer para uma equipe do tamanho do Grêmio. Com certeza teria coisas pra mudar. Acho que tinham que criar uma coisa que já tínhamos há muito tempo, o Departamento de Fundamento para funcionários, tem muitos lá que não fazem tudo que podia fazer. Eu sei das minhas capacidades, meus conhecimentos, só que o problema é que muita coisa se perde no hiato daqui para lá (profissional), também pela realidade vivida pelos garotos fora daqui." - China
O ídolo gremista também discorda de certos pontos no futebol jogado atualmente pelo Grêmio, principalmente no que foi criado por Roger Machado, dizendo ser um futebol mais "carioca ou paulista", porém é esperançoso com o trabalho de Renato Portaluppi e Valdir Espinosa. Acreditando que com uma equipe mais vertical e com tudo conspirando a favor, esse ano o título finalmente venha.
Viu algo errado? Tem a acrescentar ou sugerir? Comente abaixo!